quinta-feira, 23 de setembro de 2010

e se alguma vez me vires nos teus sonhos sacode-me a terra ao coração



































é a luz que nos sorve
as sombras como só os
anjos são claros, mas eles
nunca o saberão, meu
amor, escureço agora e se
não vieres quem me
vestirá de morta

também para que me
sepultes como semente
e nunca como uma flor
porque sei que tudo
me diz bem vinda ao
mundo inteiro enquanto
parto

terás de perdoar a
tristeza do meu corpo, ele
não entende o que estou
a fazer

e se alguma vez me
vires nos teus sonhos
sacode-me a terra ao coração

se eu ao relento for uma
mulher a ser inventada, quero
aparecer num amor urgente, não
me esqueças agora que faltei, pensa
em mim como alguém que vive no
futuro e espera, toda a morte é
um milagre

e continuarei dentro de ti

chegarás de quando em
quando, sei-o, depositado
sobre mim como um hábito ou
algo de comer

já to disse, em nenhum
túmulo caberá a
minha alma, vazarei
pelos tamanhos remediada
com a solidez das coisas
que te tocarem

mas faz-me sempre assim,
empoleirada nos telhados
a enganar os girassóis

espelhos incandescentes
sabem que a minha face
se move, está em fuga enquanto
espera, quando vieres, se
vieres, estarei e não
estarei aqui

não posso fazer melhor, ainda
que o tempo dispa dia após
dia, sei que nunca surgirá
vulnerável e nu

abre sobre mim o
sismo da passarada, eu
passiva como a pedra onde
o vento afia e inscreve,
se eu te escrever um poema de amor
tu apaixonas-te por mim,
pergunto

quantas vezes te inventei
o pé das
águas do lago e
imaginei que me empurravas
ladeira abaixo para
enfim
morrer de amor

e fiquei sozinha, lentamente
como só lentamente se deve
morrer de amor

meu amor inventado
ainda assim tanto demoras

valter hugo mãe