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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto, esse eterno levantar-se depois de cada queda
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes
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coisas que me (en)cantam
à(s)
17:50
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Vinicius de Moraes
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
enquanto te atarefas absurda no teu cotidiano, perdida, ah tão perdida de mim.
Na árvore em frente
eu terei mandado instalar um alto-falante com que os passarinhos
amplifiquem seus alegres cantos para o teu lânguido despertar.
Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo
com um raio de sol a brincar no talvegue de teus seios
e me darás a boca em flor; minhas mãos amantes
te buscarão longamente e tu virás de longe, amiga
do fundo do teu ser de sono e plumas
para me receber; nossa fruição
será serena e tarda, repousarei em ti
como o homem sobre o seu túmulo, pois nada
haverá fora de nós. Nosso amor será simples e sem tempo.
Depois saudaremos a claridade. Tu dirás
bom dia ao teto que nos abriga
e ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.
Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia
para matar a nossa sede e mel
para adoçar o nosso pão. Satisfeitos, ficaremos
como dois irmãos que se amam além do sangue
e fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro matutino.
Só então nos separaremos. Tu me perguntarás
e eu te responderei, a olhar com ternura as minhas pernas
que o amor pacificou, lembrando-me que elas andaram muitas léguas de mulher
até te descobrir. Pensarei que tu és a flor extrema
dessa desesperada minha busca; que em ti
fez-se a unidade. De repente, ficarei triste
e solitário como um homem, vagamente atento
aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te atarefas absurda
no teu cotidiano, perdida, ah tão perdida
de mim. Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito
como pesada porta. Terei ciúme
da luz que te configura e de ti mesma
que te deixas viver, quando deveras
seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio
em demanda do abismo. Vem-me a angústia
do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar
que te circunda – o espaço
que separa os nossos tempos. Tua forma
é outra: bela demais, talvez, para poder
ser totalmente minha. Tua respiração
obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.
Tu tens seios, lágrimas e pétalas. À tua volta
o ar se faz aroma. Fora de mim
és pura imagem; em mim
és como um pássaro que eu subjugo, como um pão
que eu mastigo, como uma secreta fonte entreaberta
em que bebo, como um resto de nuvem
sobre que me repouso. Mas nada
consegue arrancar-te à tua obstinação
em ser, fora de mim – e eu sofro, amada
de não me seres mais. Mas tudo é nada.
Olho de súbito tua face, onde há gravada
toda a história da vida, teu corpo
rompendo em flores, teu ventre
fértil. Move-te
uma infinita paciência. Na concha do teu sexo
estou eu, meus poemas, minhas dores
minhas ressurreições. Teus seios
são cântaros de leite com que matas
a fome universal. És mulher
como folha, como flor e como fruto
e eu sou apenas só. Escravizado em ti
despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande
pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho
lavar de ti o que restou do nosso amor
enquanto busco em minha mente algo que te dizer
de estupefaciente. Mas tudo é nada.
São teus gestos que falam, a contração
dos lábios de maneira a esticar melhor a pele
para passar o creme, a boca
levemente entreaberta com que mistificar melhor a eterna imagem
no eterno espelho. E então, desesperado
parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala
alpinista no Tibet, monje em Cintra, espeleólogo
na Patagônia. Passo três meses
numa jangada em pleno oceano para
provar a origem polinésica dos maias. Alimento-me
de plancto, converso com as gaivotas, deito ao mar poesia engarrafada, acabo
naufragando nas costas de Antofagasta. Time, Life e Paris-Match
dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me
o "Homem do Ano" e candidato certo ao Prêmio Nobel.
Mas eis que comes um pêssego. Teu lábio
inferior dobra-se sob a polpa, o suco
escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio
E tu te ris. Teu riso
desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga
quantidades insuspeitadas de estrôncio-90
acumulam-se nas camadas superiores do banheiro
só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa
radioatividade. Tu te ris, amiga
e me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo
de morrer. Interiormente
procuro afastar meus receios: "Não, ela me ama…"
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
teus seios despontarem em minhas mãos
e se crisparem tuas nádegas. Queres ficar grávida
imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias
fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados
de Pavlov. Depois, sorrindo
silencias. Odeio o teu silêncio
que não me pertence, que não é
de ninguém: teu silêncio
povoado de memórias. Esbofeteio-te
e vou correndo cortar o pulso com gilete-azul; meu sangue
flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura
e coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para
combinar bem as cores; em seguida
fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
transfusão. Eu convalescente
começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto em tua face. Sinto-me
traído, delinqüescente, em ponto de lágrimas. Mas te aproximas
só com o casaco do pijama e pousas
minha mão na tua perna. E então eu canto:
tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza
corrói minha carne como um ácido! Teu signo
é o da destruição! Nada resta
depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento
de todo o meu inútil, a causa
de minha intolerável permanência! Tu és
uma contrafação da aurora! Amor, amada
abençoada sejas: tu e a tua
impassibilidade. Abençoada sejas
tu que crias a vertigem na calma, a calma
no seio da paixão. Bendita sejas
tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que arrasas
os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face
dentro da grande treva da existência. Sim, mágica
é a face da que não quer senão o abismo
do ser amado. Exista ela para desmentir
a falsa mulher, a que se veste de inúteis panos
e inúteis danos. Possa ela, cada dia
renovar o tempo, transformar
uma hora num minuto. Seja ela
a que nega toda a vaidade, a que constrói
todo o silêncio. Caminhe ela
lado a lado do homem em sua antiga, solitária marcha
para o desconhecido – esse eterno par
com que começa e finda o mundo – ela que agora
longe de mim, perto de mim, vivendo
da constante presença da minha saudade
é mais do que nunca a minha amada: a minha amada e a minha amiga
a que me cobre de óleos santos e é portadora dos meus cantos
a minha amiga nunca superável
a minha inseparável inimiga.
Vinicius de Moraes
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Pois para isso fomos feitos: para a esperança no milagre
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
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coisas que me (en)cantam
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10:14
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Operários em Construção
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção
Vinicius de Moraes
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coisas que me (en)cantam
à(s)
07:27
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Vinicius de Moraes
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Então os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
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18:55
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